"Os santos sábios formaram os hexagramas para que se pudessem perceber neles os fenômenos. Eles acrescentaram os julgamentos para indicar a boa fortuna e o infortúnio" (Hsi Tz'u Chuan, Primeira Parte, capítulo III, parágrafo 1)
O Primeiro Estrato do Texto Divinatório do I Ching:
O Hexagrama (Kua) e o Ideograma (Ming) do Hexagrama
No começo o I Ching era um Oráculo cuja forma de comunicação era sim ou não. Sim era representado por uma linha inteira (▬▬▬) e não por uma linha partida (▬ ▬ ). Entretanto, com o desenvolvimento do pensamento chinês, surgiu a necessidade de criar um sistema de símbolos que melhor representasse a crescente complexidade dos fenômenos do mundo e a sua principal característica: o movimento. Foi assim que os conceitos de sim e não foram substituídos pelos conceitos de grande (ta) e pequeno (hsiao), estabelecendo-se a oposição fundamental que se desenvolveu ao longo do texto adivinhatório. Essa oposição entre o grande e o pequeno está carregada de tensão e da luta permanente entre essas duas forças surge o movimento que caracteriza os fenômenos do mundo manifestado. O processo de abstração que transformou as duas simples respostas oraculares nos dois princípios fundamentais do Universo, simbolizados pela linha inteira (Yang) e pela linha partida (Yin) representou um avanço intelectual sem precedentes, comparável, do ponto de vista da psique, ao domínio do fogo ou à invenção da roda. E é sobre esses dois princípios básicos que se constrói a visão da realidade do sábio chinês. Partindo dessas duas linhas básicas foi possível elaborar um modelo cosmogônico capaz de representar as imagens de todos os fenômenos do Universo. No lugar de complicadas explicações utilizando milhares de palavras, apenas uma síntese do fenômeno através das imagens abstratas formadas pela combinação de seis linhas, partidas (o pequeno) e inteiras (o grande), em repouso e em movimento - isto é, um dos princípios pode se transformar no princípio oposto de acordo com a situação - e dispostas no sentido ascendente, de forma que a primeira linha é a de baixo e a última linha é a de cima. No texto de Richard Wilhelm, o primeiro estrato do Livro Divinatório aparece distribuído da mesma forma, tanto no Livro Primeiro quanto no Livro Terceiro III: o ideograma que dá nome ao hexagrama em chinês antigo (kua-ming), o nome do hexagrama em português (ou na língua para a qual foi traduzido o texto) e o hexagrama (kua) composto de seis linhas. Nas edições antigas do I Ching não há nenhum comentário sobre os trigramas constituintes do hexagrama nem o comentário IMAGEM.
• O texto divinatório do I Ching contém ao todo 64 figuras de seis linhas ou hexagramas.
• Cada hexagrama é acompanhado de um ideograma (ming) que dá nome ao hexagrama. O ideograma que denomina o hexagrama contem as imagens arquetípicas que compõem a mensagem envida pelo I Ching ao consulente, sendo, portanto, o elemento fundamental na resposta do Oráculo.
• A interpretação desse ideograma é a chave da resposta do I Ching à pergunta formulada e revela a relação e intensidade das forças que estão atuando por traz da situação.
Assim, com base nos doze Hexagramas Soberanos, idealizamos a seguinte mandala onde se pode perceber como a alternância do dia e da noite talvez tenha sido uma das fonte de inspiração e o primeiro fenômeno natural a ser representado através de uma seqüência de imagens abstratas e, muito provavelmente, servido de base para a formação dos símbolos (kua) de seis linhas ou hexagramas.
Mandala do Tempo
O Criativo (1)
(12:00 hs)
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Irromper (45) Vir ao Encontro (44)
(10:00 hs) (14:00 hs)
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▬ ▬ O Poder do Grande (34) A Retirada (33)
▬ ▬ (8:00 hs) (16:00 hs)
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▬ ▬ (8:00 hs) (16:00 hs)
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Paz (11) Estagnação (12)
(6:00 hs) (18: hs)
(6:00 hs) (18: hs)
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Aproximação (19) Contemplação (20)
(4:00 hs) (20:00 hs)
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Aproximação (19) Contemplação (20)
(4:00 hs) (20:00 hs)
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O Retorno (24) Desintegração (23)
(2:00 hs) (22:00 hs)
(2:00 hs) (22:00 hs)
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O Receptivo (2)
(00:00)
(00:00)
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Período de Aumento da Luminosidade
e Diminuição da Obscuridade
Retorno (24)= 1 linha inteira e 5 linhas partidas
Aproximação (19)= 2 linhas inteiras e 4 linhas partidas
Paz (11)= 3 linhas inteiras e 3 linhas partidas
O Poder do Grande (34)= 4 linhas inteiras e 2 linhas partidas
Irromper (43)= 5 linhas inteiras e 1 linha partida
O Criativo (1)= 6 linhas inteiras
Período de Aumento da Obscuridade
e Diminuição da Luminosidade
Vir ao Encontro (44)= 1 linha partida e 5 linhas inteiras
Retirada (33)= 2 linhas partidas e 4 linhas inteiras
Estagnação (12)= 3 linhas partidas e 3 linhas inteiras
Contemplação (20)= 4 linhas partidas e 2 linhas inteiras
Desintegração (23)= 5 linhas partidas e 1 linha inteira
O Receptivo (2)= 6 linhas partidas
• A seqüência de imagens abstratas que formam o ciclo de aumento e diminuição da luminosidade e da obscuridade representa claramente as categorias de espaço e de tempo.
• A categoria de espaço está implícita na proporção de linhas inteiras e de linhas partidas que compõem cada símbolo ou hexagrama e que estabelecem o grau de luminosidade e de obscuridade num determinado momento.
• A categoria de tempo está implícita na posição relativa de cada um dos doze símbolos ou hexagramas na mandala.
Portanto, antes de aparecer a luz, a mais profunda e completa obscuridade domina o Universo e o hexagrama está composto de seis linhas partidas ( ▬ ▬ ). O poder obscuro alcançou o apogeu após ter expulsado definitivamente o último vestígio do poder luminoso. Corresponde à meia-noite. Trata-se do fim de um ciclo e do início de outro. Tudo está aparentemente obscuro, quieto, em recolhimento, na completa inação. É o instante que antecede o Big Bang. E no entanto, é o fim do período de aumento da obscuridade e diminuição da luminosidade. Tal como acontece durante o solstício de inverno, em que no mesmo instante em que começa o inverno, os dias, que vinham se encurtando desde o solstício de verão, começam novamente a se alongar. Por isso Lao-Tze comenta: “O Tao é invisível e intangível. Invisível e intangível mas dentro dele estão contidas as coisas. Profundo e obscuro, mas dentro dele está latente o essencial (Lao-tze, capítulo XXI). A situação corresponde ao hexagrama 2, o Receptivo. Representa, entre outras coisas, o mês de Junho, o nascimento e a meia-noite. Antes do rearranjo de Rei Wen, este hexagrama era o 1º do oráculo.
Porém, o Universo está em permanente mutação e no mesmo instante em que a última linha inteira se parte ao meio na 6ª posição, os dois extremos interiores da linha partida na 1ª posição começam um processo de aproximação e após um certo tempo uma linha inteira reaparece na 1ª posição. Essa linha nova representa o retorno do poder luminoso. É o início do período de aumento da luminosidade e diminuição da obscuridade. Exteriormente não mudou nada, já que essa linha permanece escondida e discreta, mas interiormente começa a minar os fundamentos do poder obscuro. Lao Tze comenta: “O retorno é o movimento do Tao” (Lao-tze, capítulo XL). A situação corresponde ao hexagrama 24, O Retorno. Representa o mês de Julho, os sete anos de idade e as 2:00 horas.
Assim, o poder luminoso continua a sua expansão e começa o processo de mutação da segunda linha partida e o hexagrama seguinte passa a ser composto de duas linhas luminosas e quatro linhas obscuras. Duas linhas inteiras já representam uma considerável força luminosa- um terço do hexagrama, para ser mais exato-, ainda mais que elas estão juntas e na parte inferior do hexagrama, enfraquecendo as estruturas das linhas obscuras. Continua exteriormente obscuro mas não há como ignorar o avanço do poder luminoso. Isso significa que o poder luminoso está se aproximando. Por isso a situação corresponde ao hexagrama 19, Aproximação. Representa o mês de Agosto, os quatorze anos de idade, e as 4:00 horas.
A ascensão do poder luminoso continua inexorável e a terceira linha partida se transforma num nova linha inteira para formar um hexagrama derivado de três linhas luminosas e três linhas obscuras. Há um equilíbrio de forças perfeito. As condições são ideais para a manifestação de todos os processos que estavam latentes e escondidos pelas forças ocultas, mas que agora não há mais como impedir que se manifestem. O poder luminoso se manifesta definitivamente com todo seu esplendor e assim começa a amanhecer. É um momento mágico. Há uma grande ebulição no ar , e os objetos começam a recobrar lentamente sus formas. Parecem flutuar em perfeita harmonia , como se estivessem participando de um grande ballet cósmico. A sensação é de unidade na diversidade. Por isso, a situação corresponde ao hexagrama 11, Paz. Representa o mês de Setembro, os vinte-e-um anos de idade e as 6:00 horas da manhã.
Mas, o processo de mutação não pára e a próxima linha partida a se transformar numa linha inteira é na 4ª posição. O hexagrama derivado fica assim formado por quatro linhas luminosas e duas linhas obscuras. Aqui o poder luminoso já domina o hexagrama, controlando quatro das seis posições do hexagrama (66,66%). Neste momento, o poder luminoso mostra todo sua força e seu poder, e as linhas obscuras são definitivamente obrigadas a recuar. É uma grande manifestação da vida. Há muita agitação e grande alvoroço. A situação corresponde ao hexagrama 34, O Poder do Grande. Representa o mês de Outubro, os vinte-e-oito anos de idade e as 8:00 horas.
A próxima mutação ocorre na linha partida na 5ª posição e o hexagrama derivado é composto de cinco linhas luminosas e apenas uma linha obscura. Agora, a derrota das linhas obscuras é iminente e não há como evitá-la. Resta apenas uma linha obscura resistindo ao impulso avassalador do poder luminoso. O ciclo de aumento da luminosidade e diminuição da obscuridade se aproxima do apogeu, a vitória total do poder luminoso é uma questão de tempo e o poder luminoso parece onipotente haja vista o esmagamento completo das linhas obscuras. E entretanto, o alerta no Julgamento: Perigo! Perigo porque ao alcançar o apogeu o poder luminoso não terá mais para onde ir e o resultado fatalmente será, tarde ou cedo, o declínio; ou seja a decadência do poder luminoso e aumento do poder obscuro. Diz Lao Tse: "Quando as coisas alcançam o apogeu, começam a declinar..."(Lao tse, capítulo LII). Por isso, recomenda: “Para contraí-lo é necessário primeiro expandi-lo; para enfraquecê-lo é necessário primeiro fortalecê-lo; para destituí-lo é necessário primeiro promovê-lo; para tirar-lhe é necessário primeiro dar-lhe”. (Lao-tze, capítulo XXXVI). Mais, por enquanto, a situação corresponde ao hexagrama 43, Irromper. Representa o mês de Novembro, os trinta-e-cinco anos de idade, e as 10:00 horas.
Com a mutação da última linha partida, as seis linhas inteiras (▬▬▬) tomam conta da situação expulsando definitivamente todas as linhas obscuras. É o apogeu do poder luminoso. A luminosidade é tão forte que ofusca, pois é o momento em que o sol se encontra no zenith (meio-dia) e sua luz alcança a força máxima. As linhas luminosas reinam poderosas e absolutas e nada parece ofuscá-las, pois não há, aparentemente, nenhum vestígio do poder obscuro. E no entanto, Lao-Tze adverte: “Enche o vaso até a borda e te arrependerás; afia uma lâmina até o limite máximo e logo perderá seu gume”. (Lao-tze, capítulo IX). A certeza de que a situação chegou a um ponto de exaustão, apesar do brilho aparente das seis linhas luminosas é a razão pela qual este hexagrama não contém um único julgamento favorável em nenhuma de suas seis linhas luminosas. A situação corresponde ao hexagrama 1, o Criativo. Representa o mês de Dezembro, quarenta-e-dois anos de idade e o meio-dia.
Entretanto, o Universo está em permanente transformação. No mesmo instante em que se completa a união da última linha partida na 6ª posição - ou seja, as seis linhas inteiras representam o apogeu da luminosidade - um ponto de obscuridade aparece bem no meio da linha inteira na 1ª posição, mostrando o renascimento do poder obscuro. É o início do período de aumento da obscuridade e diminuição da luminosidade. Eis porque Lao-Tze comenta: “Quando se procura o apogeu se encontra o declínio”. (Lao-tze, capítulos XXX e LV). Assim, após um certo tempo, a linha inteira se parte no meio e uma linha obscura aparece na 1ª posição, indo ao encontro das cinco linhas luminosas. Por isso, a situação corresponde ao hexagrama 44, Vir ao Encontro. Representa o mês de Janeiro, quarenta-e-nove anos de idade e as 14:00 horas.
Neste momento o poder obscuro continua a sua expansão provocando a transformação da segunda linha inteira na 2ª posição e o hexagrama derivado fica composto de duas linhas obscuras e quatro linhas luminosas. Constata-se que a força do poder obscuro avança inexorável e consegue expulsar mais uma linha luminosa. Não há jeito, o recuo do poder luminoso é iminente. Nesta situação, o homem sábio sabe que não adianta resistir e que o melhor será acompanhar o recuo do poder luminoso. Por isso, a situação corresponde ao hexagrama 33, A Retirada. Representa o mês de Fevereiro, cinquenta-e-seis anos de idade e as 16:00 horas.
A transformação da linha inteira na 3ª posição em uma linha obscura é agora uma questão de tempo e o hexagrama derivado passa a ser composto de três linhas obscuras e três linhas luminosas. O avanço irresistível do poder obscuro faz com que ele alcance o equilíbrio com o poder luminoso. É uma estrutura aparentemente igual - três linhas luminosas e tres linhas obscuras- à do hexagrama oposto, Paz (12), mas representa uma realidade completamente oposta. Enquanto no hexagrama Paz as forças luminosas avançam expulsando às forças obscuras, neste hexagrama são as forças obscuras que avançam expulsando às forças luminosas. Isso significa que a tendência da situação é o desaparecimento dos atributos inerentes às forças luminosas e o aparecimento dos atributos correspondentes às forças obscuras. A força expansiva, a vitalidade, a agressividade, a liderança, a criatividade deverão ceder lugar para o recolhimento, a receptividade, a inação (wu-wei), a espera, a paciência, e a flexibilidade. É a hora do anoitecer. Os últimos raios de sol lutam para permanecer por mais alguns instantes, mas é inútil. A situação corresponde ao hexagrama 12, Estagnação. Representa o mês de Março, sessenta-e-três anos de idade e as 18:00 horas.
A partir de agora o poder obscuro avança rapidamente porque o poder luminoso se encontra enfraquecido e não consegue mais oferecer resistência. A linha inteira na 4ª posição se transforma e o hexagrama derivado passa a ter quatro linhas obscuras (66,66%) e apenas duas linhas luminosas (33,33%). O sol já se ocultou há um bom tempo no horizonte e e os objetos já perderam seus contornos confundindo-se uns com os outros. O rio, as plantas , as árvores, as rochas, os inúmeros seres viventes da floresta, todos parecem uma informe massa obscura. Nada mais consegue ser distinguido com precisão. Um manto obscuro desce sobre todas as coisas. Há apenas uma sensação - mas não uma percepção - da unidade pois a obscuridade faz com que tudo permaneça igual. No entanto, a ausência de luminosidade faz com um universo muito mais vasto e imponente que o planeta terra apareça perante nossos olhos. É o Cosmos brilhando tenuemente em sua infinita imensidão. É, portanto, o momento da contemplação absorta. Esse deve ter sido o sentido da frase de Lao-Tze: “Obscurece a luz” (Lao-tze, capítulo IV). É o instante em que se toma consciência da nossa infinita pequenez mas também da infinita grandeza. Lao-Tze, comenta: “Sempre sem desejos, pode ser chamado de ‘pequeno’; as infinitas coisas retornam a ele, pode ser chamado de ‘grande’ ”. (Lao-tze, capítulo XXXIV). A situação corresponde ao hexagrama 20, Contemplação. Representa o mês de Abril, setenta anos de idade e as 20:00 horas.
O avanço do poder obscuro continua irresistível e a transformação da próxima linha inteira na 5ª posição dá lugar a um hexagrama derivado de cinco linhas obscuras e uma linha luminosa. Agora tem apenas uma linha luminosa resistindo ao poder obscuro e a expulsão total do poder luminoso é iminente. O poder obscuro está alcançando o apogeu; ou seja, sua força máxima, , mas, paradoxalmente, o ciclo de aumento da obscuridade e diminuição da luminosidade também está chegando ao fim; ou seja, está se exaurindo. Mas para isso ocorrer é necessário a destruição total do ciclo que está acabando para poder iniciar um novo ciclo. Por isso, o Julgamento do hexagrama diz: "Não é favorável ir a parte alguma". A situação corresponde ao hexagrama 23, Desintegração. representa o mês de Maio, setenta e sete anos de idade e as 22:00 horas.
Essa seqüência dos doze símbolos ou Hexagramas Soberanos pode representar qualquer ciclo do Universo - o ciclo da vida, o ciclo solar, o ciclo lunar, o ciclo das estações, etc. - mostrando através de uma série ordenada de imagens abstratas aquilo que demandaria milhares e milhares de palavras para ser expressado, sem nunca ser totalmente compreendido.
• Por se tratar de uma imagem abstrata do Universo, o símbolo ou hexagrama deve ser percebido, em primeiro lugar, como uma totalidade, um organismo composto de seis linhas inseparáveis, cujas mutações e transformações dão lugar a um novo símbolo ou hexagrama, que é uma nova representação do Universo em permanente movimento.
Na realidade, os doze símbolos ou hexagramas cíclicos são imagens que podem representar qualquer movimento cíclico no Universo e ajudam a interpretar uma seqüência de ações cujo resultado (retorno) é aparentemente imprevisível (acaso) pelo intelecto humano. Entretanto, a maioria das ações baseadas em avaliações subjetivas da situação têm retornos imprevisíveis pelo intelecto humano. E é precisamente a necessidade da psique de reduzir ao máximo essa incerteza que torna necessária e justifica a consulta ao I Ching, em cujas imagens - o hexagrama básico e o hexagrama derivado da mutação e da transformação das linhas do hexagrama básico - o consulente poderá ter uma visão antecipada dos retornos gerados pelas ações determinadas pelos acontecimentos de sua vida.
• A meditação na mandala do Ciclo do Tempo; isto é, a visualização dos ciclos do Universo através das imagens dos símbolos ou hexagramas cíclicos - especialmente o ciclo do dia e da noite e o ciclo de apogeu e decadência da vida - é o primeiro passo para abrir o canal de comunicação com o plano espiritual (Tao) através do I Ching.
Aliás, uma tarefa nada fácil, a julgar pela máxima de Lao-Tze: “A porta perfeitamente trancada não tem tranca e mesmo assim ninguém consegue abri-la” (Lao-tze, capítulo XXVII).
Os Julgamentos dos Hexagramas: o Segundo Estrato do Texto Divinatório do I Ching.
Os julgamentos dos hexagramas (kua-tzu) são o segundo estrato do texto divinatório do I Ching e foram escritos para explicar os hexagramas. O julgamento de cada hexagrama aparece, na versão de Richard Wilhelm, no Livro Primeiro, após o ideograma que dá nome ao hexagrama (kua-ming), após o nome do hexagrama em português (ou na língua para o qual foi traduzido o texto), após o hexagrama (kua) e após o nome do hexagrama em português; e, no Livro Terceiro, após o ideograma que dá nome ao hexagrama (kua-ming), após o nome do hexagrama em português, após o hexagrama (kua), após a Seqüência (Hsü - kua chuan), apôs a Coletânea de Indicações (Tsa - kua chuan) e apôs o nome do hexagrama em português.
“CONFLITO. Você é sincero e está sendo impedido.
Deter-se cautelosamente no meio do caminho trás boa fortuna.
Ir até o fim trás infortúnio.
É favorável ver o grande homem.
Não é favorável atravessar a grande água”.
(Julgamento do hexagrama 6, Conflito)
O Julgamento do hexagrama é o complemento da mensagem central contida nas imagens arquetípicas do ideograma que denomina o hexagrama. Descreve e interpreta a relaçao e intensidade das forças que estão atuando no presente momento nos bastidores da situação e muitas vezes indica o curso de ações contribuintes.
• O texto do julgamento do hexagrama freqüentemente revela uma ou várias ações alternativas determinadas pelo evento consultado.
• O texto do julgamento do hexagrama frequentemente contém um ou vários dos oito termos divinatórios o que significa que o deuses aprovam e respaldam os oráculos outorgados pelo I Ching - exceto nos hexagramas 20, 35 e 44.
Os Quatro Atributos (Szu-te)
Nos primórdios da dinastia Chou, o método de adivinhação com as varetas de milefólio incluia apenas os hexagramas (kua), os ideogramas que davam o nome a cada hexagrama (kua-ming) e a fórmula divinatória ou Quatro Atributos (Szu-te): sublime (yuan), sucesso (heng), favorável (li) e perseverança (cheng) .
Assim, os Quatro Atributos têm o significado divinatório que provém dos estratos mais antigos do texto. Posteriormente, durante a dinastia Han Posterior (25 - 220 d.C.) esses quatro termos foram relacionados com as Quatro Estações passando a representar um modelo que descreve o Ciclo do Tempo.
Sublime (yuan) - às vezes aparece supremo ou suprema - como termo adivinhatório indica o poder de originar algo, a fonte ou origem das coisas, o poder dos espíritos.
Sucesso (heng), como termo adivinhatório indica algo que pode ter sucesso se um sacrifício é oferecido aos espíritos certos no tempo certo.
Favorável (li), como termo adivinhatório indica que algo é lucrativo, vantajoso, benéfico, cheio de revelações.
Perseverança (cheng), como termo adivinhatório indica a adivinhação propriamente dita, a consulta aos espíritos, a submissão de alguma coisa ou ação ao julgamento dos espíritos.
“DIFICULDADE INICIAL traz sublime sucesso
favorecendo através da perseverança.
Nada deve ser empreendido.
É favorável designar ajudantes.”
(Julgamento do hexagrama 3, Dificuldade Inicial)
“A INFLUÊNCIA. Sucesso.
A perseverança é favorável.
Tomar uma jovem em casamento traz boa fortuna.”
(Julgamento do hexagrama 31, Influência)
“GRANDES POSSES: sublime sucesso!"
(Julgamento do hexagrama 14, Grandes Posses)
“O PODER DO GRANDE. A perseverança é favorável”
(Julgamento do hexagrama 34, O Poder do Grande)
“O PODER DE DOMAR DO PEQUENO tem sucesso.
Nuvens densas, nenhuma chuva vinda de nossa região oeste”
(Julgamento do hexagrama 9, O Poder de Domar do Pequeno)
“REVOLUÇÃO. Em seu dia próprio,
você verá que lhe darão crédito.
Supremo sucesso, propiciado pela perseverança.
O arrependimento desaparece.”
(Julgamento do hexagrama 49, Revolução.)
• A fórmula divinatória está presente quando um, dois, três ou os quatro atributos fazem parte do texto do Julgamento.
• Quando um, dois, três ou os quatro atributos fazem parte do texto do Julgamento significa que os deuses aprovam e apoiam a mensagem enviada pelo I Ching ao consulente.
Entretanto, na versão do I Ching que chegou até nossos dias, a fórmula adivinhatória aparece em 32 dos 64 hexagramas; isto é, em 50% dos casos.
Os hexagramas que contém a fórmula adivinhatória são: 1, 2, 3, 4, 7, 9, 14, 15, 17, 18, 19, 21, 22, 24, 25, 26, 30, 31, 32 ,33, 34, 45, 46, 47, 51, 55, 58, 59, 60, 62, 63 e 64.
Os hexagramas que não contém a fórmula adivinhatória são: 5, 6, 8, 10, 11, 12, 13, 16, 20, 23, 27, 28, 29, 35, 36, 37, 38, 39, 40, 41, 42, 43, 44, 48, 49, 50, 52, 53, 54, 56, 57 e 61.
Os hexagramas que contém os quatro atributos são: 1 - 2 - 3 - 17 - 19 e 25 (total de 6 hexagramas).
Os hexagramas que contém três atributos são: 30 - 31 - 58 e 62 (total de 4 hexagramas).
Os hexagramas que contém dois atributos são: 14, 18, 26, 34, 46 e 47 (total de 6 hexagramas).
Os hexagramas que contém um atributo são: 4, 7, 9, 15, 21, 22, 24, 32, 33, 45, 51, 55, 59, 60, 63 e 64 (total de 16 hexagramas).
Os Quatro Atributos são tão importantes na função oracular que no próprio texto do I Ching há um comentário específico destinado à definição e interpretação desses quatro atributos: trata-se do Wen Yen Chuan (7ª Asa), que no livro Terceiro encontra-se após os textos das linhas dos hexagramas 1 e 2. O estudo dos quatro atributos ocupa um grande espaço na bibliografia do I Ching e não há um só comentarista importante que não tenha abordado os seus significados com profundidade.
As Cinco Profecias
O método de adivinhação com as varetas de milefólio se desenvolveu sob a influência da adivinhação através do método da carapaça de tartaruga, do qual tomou emprestado alguns termos.
Assim, as Cinco Profecias têm o significado divinatório que provém de uma época bem anterior aos estratos ainda mais antigos do texto do I Ching. O método de adivinhação com a carapaça de tartaruga se remonta à época da prática de adivinhação com ossos de animais, o que na realidade foi a primeira forma de escrita na China Antiga. A maior descoberta de oráculos de ossos foi realizada em Anyang, Honan, a última capital da dinastia Shang (1751-1112 a.C.), a segunda dinastia da China.
Boa fortuna (chi), como termo divinatório, significa uma situação ou ação que leva ao propósito, aproxima do sentido, conduz ao Poder Superior e harmoniza com o Tao.
Infortúnio (hsung), como termo divinatório, significa uma situação ou ação que desvia do propósito, afasta do sentido, obstrui o Poder Superior e é contrária ao Tao.
Nenhuma culpa (wu-chiu), como termo divinatório, refere-se a nenhum erro ou dano na situação ou ação consultada.
Perigo (li), como termo divinatório, avisa sobre a presença de um espírito que procura vingança fazendo sofrer os vivos: pacificar ou exorcizar esse espírito pode ter um grande efeito de cura.
“MANTER-SE UNIDO traz boa fortuna.
Indague ao oráculo mais uma vez
se você possui elevação, constância e perseverança;
então não há culpa.
Os inseguros gradualmente se aproximam.
Aquele que chega tarde demais encontra o infortúnio.”
(Julgamento do hexagrama 8, Manter-se Unido)
“IRROMPER. Deve-se dar a conhecer o assunto
na corte do rei com determinação.
Deve ser exposto com veracidade. Perigo.
É preciso notificar sua própria cidade.
Não é favorável recorrer às armas.
É favorável empreender algo.”
(Julgamento do hexagrama 43, Irromper)
• As Cinco Profecias, que são remanescentes do Oráculo da carapaça de tartaruga, aparecem freqüentemente no texto do julgamento do hexagrama e, principalmente, no texto do julgamento das linhas do hexagrama: boa fortuna (chi); infortúnio (hsung); nenhuma culpa (wu-chiu); e, perigo (li).
• Quando alguma das Cinco Profecias fazem parte do texto do Julgamento isso significa que os deuses aprovam e apoiam a mensagem enviada pelo I Ching ao consulente.
• O significado divinatório dos Quatro Atributos e das Cinco Profecias - assim como o das outras palavras-chave do texto - está explicado com detalhe na postagem "Glossário".
O Julgamento das Linhas:
O Terceiro Estrato do Texto Divinatório do I Ching
Os julgamentos das linha (yao-tzu) são o terceiro e último estrato do texto divinatório do I Ching. As linhas do hexagrama se desenvolvem de baixo para cima, de forma que a linha inferior corresponde à primeira posição do hexagrama, a segunda linha, que aparece imediatamente acima, corresponde à segunda posição do hexagrama, até a sexta linha que "fecha" o hexagrama. Esta disposição das linhas mostra o desenvolvimento da situação, de forma que a primeira linha representa o início e a sexta linha o fim do processo. Cada uma das seis linhas dos sessenta e quatro hexagramas contém um julgamento:
“Nove na terceira posição significa:
O homem superior permanece criativamente ativo o dia todo.
Preocupações ainda o envolvem ao anoitecer.
Perigo. Nenhuma culpa.”
(Hexagrama 1, O Criativo)
“Nove na quinta posição significa:
Dragão voando nos céus.
É favorável ver o grande homem.
(Hexagrama 1, O Criativo)
“Nove na quinta posição significa:
Lutar diante dele traz suprema boa fortuna.”
(Hexagrama 6, Conflito)
“Seis na segunda posição significa:
Eles suportam e toleram.
Isso significa boa fortuna para os homens inferiores.
A estagnação ajuda o grande homem a obter sucesso.”
(Hexagrama 12, Estagnação)
“Nove na segunda posição significa:
A perseverança é favorável.
Empreender algo traz infortúnio.
Sem diminuir a si próprio
se pode aumentar os outros.”
(Hexagrama 41, Diminuição)
• Para aqueles que preferem se manter fieis à tradição milenar , o texto recomendado pelo Instituto do I Ching para CONSULTAR O ORÁCULO é o chamado texto divinatório.
• O texto divinatório é composto pelo ideograma (kua ming) que denomina o hexagrama, o Julgamento do Hexagrama e os Julgamentos das Linhas do Hexagrama, quando uma ou várias delas sofre uma mutação ou uma transformação.
• Este ponto de vista segue o critério utilizado na Antiguidade quando se dividia o texto básico dos comentários do I Ching, e na prática dos adivinhos
na China e no Japão que de um modo geral deixam de lado as Dez Asas no processo de
adivinhação.
• O ideograma que denomina o hexagrama contem as imagens arquetípicas que compõem a mensagem envida pelo I Ching ao consulente, sendo, portanto, o elemento fundamental na resposta do Oráculo. Assim, o consulente deverá meditar e exaurir completamente o conteúdo dessas imagens, e procurar estabelecer a relação dessas imagens com a questão consultada.
• O Julgamento do Hexagrama é o complemento da mensagem central contida nas imagens arquetípicas do ideograma que denomina o hexagrama. Descreve e interpreta a relaçao e intensidade das forças que estão atuando no presente momento e muitas vezes indica ações contribuintes. Quando no texto do julgamento aparecem um ou vários dos oito termos divinatórios significa que os deuses confirmam e endossam a mensagem do oráculo.
• A mutação e a transformação de uma ou mais linhas na linha oposta, tem como conseqüência a modificação do hexagrama básico (presente) em um hexagrama derivado (futuro). Mostra a mudança que ocorrerá, mais cedo ou mais tarde, na relação e intensidade das forças que hoje estão atuando; ou seja, para onde irá evoluir a situação inicial mostrada no hexagrama básico.
• O texto do julgamento das linhas em mutação e transformação revela as ações contribuintes através das quais irá se modificar essa relação de forças mostrada no hexagrama básico.• O ideograma que denomina o hexagrama contem as imagens arquetípicas que compõem a mensagem envida pelo I Ching ao consulente, sendo, portanto, o elemento fundamental na resposta do Oráculo. Assim, o consulente deverá meditar e exaurir completamente o conteúdo dessas imagens, e procurar estabelecer a relação dessas imagens com a questão consultada.
• O Julgamento do Hexagrama é o complemento da mensagem central contida nas imagens arquetípicas do ideograma que denomina o hexagrama. Descreve e interpreta a relaçao e intensidade das forças que estão atuando no presente momento e muitas vezes indica ações contribuintes. Quando no texto do julgamento aparecem um ou vários dos oito termos divinatórios significa que os deuses confirmam e endossam a mensagem do oráculo.
• A mutação e a transformação de uma ou mais linhas na linha oposta, tem como conseqüência a modificação do hexagrama básico (presente) em um hexagrama derivado (futuro). Mostra a mudança que ocorrerá, mais cedo ou mais tarde, na relação e intensidade das forças que hoje estão atuando; ou seja, para onde irá evoluir a situação inicial mostrada no hexagrama básico.
• Os oito termos divinatórios que freqüentemente aparecem no texto do julgamento das linhas confirmam a validade dessas ações contribuintes.
• A nova relação de forças é revelada pelas imagens evocadas pelo ideograma que denomina o hexagrama derivado e representa uma nova imagem arquetípica sobre a qual é preciso meditar muito.
• As imagens arquetípicas contidas no ideograma que denomina o hexagrama derivado assim como as ações sugeridas pelo texto do julgamento do hexagrama derivado compõem a visão do futuro.
• Embora o Instituo do I Ching recomende o uso apenas do texto divinatório (Livro Primeiro na versão de Richard Wilhelm, exceto o comentário IMAGENS) com fins divinatórios, nada impede que o consulente, quando não suficientemente esclarecido pelo texto divinatório, procure novos esclarecimentos nos Comentários Filosóficos (Livro Segundo e LivroTerceiro na versão de Richard Wilhelm). Entretanto, devemos alertar que para o principiante o resultado pode ser contraproducente, e em lugar de esclarecer os pontos confusos o consulente pode ficar mais confundido ainda.
• Lembramos que os Oráculos do I Ching NUNCA FALHAM, pois representam a mensagem do Tao ou Ordem Cósmica Superior para os seres mortais. Quem falham SÃO OS HOMENS na interpretação dos oráculos.
• Entretanto, nada impede que o I Ching seja consultado como livro de sabedoria, onde naturalmente todo seu conteúdo deve ser analisado. Históricamente, a primeira consulta ao I Ching como livro de filosofia se remonta a 602 a.C. Do ponto de vista filosófico, o primerio comentarista a considerar o I Ching como um livro de sabedoria foi Wang Pi (226-296 d.C.)
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