A História, a Filosofia e a Consulta ao I Ching (Elaboração, Organização e Tradução de Wu-ming).
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Ritual de Consulta ao Oráculo
"O Mestre disse: Que fazem as Mutações? As Mutações desvelam coisas, completam os assuntos e abrangem todos os caminhos sobre a terra. Isso e nada mais elas fazem. Por isso, os santos e sábios as utilizavam para penetrar todas as vontades sobre a terra e para determinar todos os campos de ação sobre a terra e para resolver todas as dúvidas sobre a terra". (Hsi Tz'u Chuan, Primeira Parte, capítulo XI, parágrafo 1)
A Consulta aos Antepassados
Os mais antigos rituais de adivinhação na China eram destinados à consulta aos antepassados sobre as questões que mais preocupavam o soberano e que mais afetavam ao império.
“Pan-Keng desejava transferir a capital do império para Yin mas o povo não queria morar lá. Aí, ele reuniu todos os descendentes e fez o seguinte desabafo: ‘Nosso rei (Chu-I, seu predecessor) se instalou aqui e fixou Keng como capital. Ele agiu dessa forma preocupado com o bem estar de nosso povo, mas ele não teria se fixado aqui se soubesse que todos poderiam morrer por não ter como proteger suas vidas. Eu consultei a carapaça de tartaruga e obtive a seguinte resposta: ‘Esse não é um bom lugar para vocês’. (Shu Ching, The Books of Shang, The Pen-Keng, Section 1).
Assim, os antepassados mortos e divinizados governavam o Império através da adivinhação. Seus descendentes vivos não eram mais do que seus representantes e mandatários e os espíritos dos antepassados deviam ser consultados e obedecidos em todas as questões importantes.
Os Cuidados com o Corpo e a Atitude Mental do Consulente
Nos antigos rituais augurístico-sacrificatórios considerava-se inútil esperar que os mortos descessem na forma de espíritos (shên) a menos que o médium (shih) tivesse praticado três dias de jejum e abstinência. Descobrimos que essas idéias não são totalmente alheias à cultura ocidental quando lembramos o ditado: "Mens sana in corpore sano". Todavia, embora o jejum e a abstinência sejam altamente recomendáveis, é pouco provável que nos dias de hoje o consulente se disponha a fazer tal sacrifício.
Assim, é sugerido que pelo menos seja evitado o consumo de bebidas alcoólicas, fumo e estimulantes, recomendando-se a ingestão de infusões de chás naturais, tais como erva cidreira e camomila durante a consulta. Ademais é aconselhável que o consulente se encontre totalmente descansado na hora da consulta - que deverá ser feita preferentemente pela manhã, quando o poder luminoso está em ascensão - e é melhor evitar de consultar o Oráculo quando se está doente.
Em segundo lugar a atitude mental. No Ocidente dizemos: “Orandum est ut sit mens sana in corpore sano”. Assim, alguns minutos de meditação antes da consulta permitirão que a mente do consulente se acalme preparando-se para entrar em sintonia com o plano do I Ching. A atitude mental do consulente deverá ser de absoluta humildade e reverência ao Oráculo, uma vez que o I Ching é o meio através do qual o Tao se comunica com os homens.
Sobre o Local da Consulta e os Cuidados com o Livro Sagrado
O local da consulta deve ser preferentemente calmo, silencioso, claro e arejado, com muitas plantas e árvores. É importante ascender incenso para purificar o ambiente antes de iniciar a consulta. Por ser um livro sagrado, o I Ching deve permanecer sempre envolvido num pano ou lenço de seda vermelho e colocado num suporte de madeira em cima de um altar vivo, nunca acima da cabeça, entre duas velas vermelhas de sete dias que devem permanecer sempre acesas, junto a um incensário redondo de madeira e a um sino chinês com forma de meia taça. As varetas e/ou moedas devem ser acondicionadas numa caixa de madeira e também colocadas junto ao I Ching.
O Ritual antes de Iniciar a Consulta
Os Taoístas consideram que o simples registro do hexagrama sagrado numa folha de papel coloca o consulente em contato com o plano espiritual (Tao) ao qual corresponde o hexagrama e que quem manuseia as varetas de milefólio faz um chamado ao Poder (Teh) divinatório. Por isso, os mestres esclarecidos tomam certas precauções, como purificar o ambiente através da queima de incenso e realizar certas invocações como forma de se proteger do Poder, que o consulente na realidade não controla. A seguir transcrevemos uma invocação muito usada pelos mestres antes de começar a consulta ao I Ching.
“Que o divino Fu-Hsi, soberano do leste, se digne a conferir-nos a santidade; que o divino Chen-Nung, soberano do sul, se digne a conferir-nos a equidade; que o divino Huang Ti, soberano do centro, se digne a conferir-nos o espírito do ritual; que o divino Yao, soberano do oeste, se digne a conferir-nos a bondade; e que o divino Shun, soberano do norte, se digne a conferir-nos a sabedoria”.
Assim, após cobrir com um pano amarelo a mesa onde será realizada a consulta, o consulente ascende um incenso e retira as varetas ou moedas da caixa de madeira, passando-as três vezes por cima do incenso num movimento circular no sentido horário iniciando a invocação de sacralização das varetas ou moedas na frente do altar ou sentado para o sul onde será realizada a consulta.
“Que o divino Fu-Hsi, soberano do leste, se digne a infundír nestas varetas (ou moedas) a obediência às perguntas que serão por mim realizadas; que o divino Chen-Nung, soberano do sul, se digne a infundí-lhes o espírito da verdade; que o divino Huang-Ti, soberano do centro, se digne a infundí-lhes precisão nas respostas; que o divino Yao, soberano do oeste, se digne a infundí-lhes a tolerância perante certas perguntas; que o divino Shun, soberano do norte, se digne a infundi-lhes o comedimento no estabelecimento dos oráculos”.
Ao concluir o manuseio das varetas, o consulente deverá guardá-las imediatamente na caixa de madeira até a próxima consulta.
A Formulação da Pergunta
O I Ching é um guia para tomar decisões em situações onde o fluxo de vida está conturbado. Ajuda o indivíduo a perceber as forças ocultas que estão agindo, como elas tendem a evoluir e como o consulente pode-se relacionar com elas. Esclarece a forma de ver as coisas e mostra novas alternativas.
A necessidade de consultar o Oráculo surge quando o consulente é envolvido por uma situação onde os métodos convencionais de resolver os problemas não funcionam. Resistência, relutância, ansiedade, forte desejo, a sensação de alguma coisa escondida ou confusa, a necessidade de mais informação, a sensação de uma oportunidade única, a necessidade de entrar em contato com algo maior do que o próprio indivíduo, todos esses são sintomas de que o indivíduo precisa olhar por trás ou através da situação. Quando consultado, o Oráculo mostra essa perspectiva mais profunda, mas a responsabilidade da decisão permanece com o próprio indivíduo.
Agora, o problema concentra-se na formulação da pergunta. A pergunta é importante porque representa a ponte de ligação entre as imagens adivinatórias e a situação pessoal do consulente. Esclarece um momento no tempo e o arranca do fluxo da vida de forma que atua de elo com as energias fundamentais.
• A formulação da pergunta envolve duas etapas.
Primeiro, deve-se fazer uma clara formulação da pergunta, baseada numa linha de ação definida. Deve-se procurar ser claro. O consulente deve definir o que deseja perguntar com a máxima honestidade e sinceridade. E, se for possível, definir a pergunta, de forma conclusiva: “Qual é o Tao da minha relação com meu namorado?”; “Qual é o Tao da sociedade com meu irmão?”; “Qual é o Tao do meu casamento?”; “Qual é o Tao do meu emprego?;” “Qual é o Tão de minha atividade profissional?”: “Qual é o Tao do meu acidente?” etc. O Oráculo conectará o consulente com o plano espiritual - as imagens arquetípicas - através da pergunta e revelará quais as forças dinâmicas que estão agindo por trás da situação, as sementes dos eventos futuros. Este processo permite que o consulente atravesse a barreira que costuma separá-lo do plano espiritual. A resposta não será um simples sim ou não, mas uma avaliação específica do futuro dos cursos de ação propostos. Na realidade o que o consulente está pedindo é um maior esclarecimento sobre o qual ele possa basear as suas decisões e ações.
• A pergunta é o ponto de contato com o plano espiritual e permite que o consulente receba e desvende a mensagem adivinatória.
Segundo, deve-se descobrir a origem do problema - isto é, a causa espiritual. Deve-se procurar descobrir os sentimentos e os complexos envolvidos, as imagens e experiências que jazem por trás da situação aparente, as sensações, as lembranças, os medos, o que representa, as relações envolvidas, o que está em jogo, o porque de tanta ansiedade ou incerteza. Esses elementos determinam o campo subjetivo da situação. É parte de um processo de expansão e contração que leva da relação inconsciente com uma força perturbadora à orientação específica de como lidar com a situação. Por último, é importante observar que o I Ching freqüentemente esclarece o que nós devemos saber e não o que nós queremos saber em relação à situação . Por isso, às vezes o consulente não entende a resposta ou acha que a resposta não tem nada a ver com a pergunta.
A Consulta com as Varetas
A forma tradicional de consulta ao I Ching é através do manuseio de 50 varetas de milefólio (Achillea Millefolium), da seguinte maneira:
1) Separe uma das 50 varetas e coloque-a de lado, bem longe do alcance da mão. Essa vareta representa o oráculo e por isso não participa das mutações, atuando como elo de ligação entre o consulente e o plano espiritual (Tao).
2) Energize as varetas segurando-as com as duas mãos por alguns instantes concentrando-se mentalmente na pergunta a ser formulada.
3) Divida com a mão direita o feixe de varetas em dois conjuntos, depositando o conjunto da mão direita na mesa e mantendo o outro conjunto na mão esquerda.
4) Retire uma vareta do conjunto que está em cima da mesa e coloque-a entre o dedo anular e o dedo mindinho da mão esquerda.
5) Divida o conjunto de varetas que permaneceu na mão esquerda em grupos de quatro varetas e coloque-os sobre a mesa até sobrar 4 ou menos varetas.
6) Coloque o que sobrou - de 1 a 4 varetas - entre o dedo médio e o anular da mão esquerda.
7) Pegue o outro conjunto que permaneceu em cima da mesa, passe-o para a mão esquerda e comece a operação de divisão em grupos de quatro varetas até sobrarem 4 ou menos varetas.
8) Coloque o que sobrou - de 1 a 4 varetas - entre o dedo médio e o dedo indicador da mão esquerda.
9) Conte o total de varetas que sobrou na mão esquerda - 5 ou 9 varetas - e separe-as definitivamente. Esse é o primeiro resto.
10) Junte os grupos de varetas que sobraram em cima da mesa e realize pela segunda vez a operação descrita nos ítens de 3 a 9. Desta vez, só sobram 4 ou 8 varetas. Esse é o segundo resto.
11) Junte os grupos de varetas que sobraram em cima da mesa e realiza pela terceira vez a operação descrita nos ítens de 3 a 9. Desta vez, também sobram de 4 a 8 varetas. Esse é o terceiro resto.
12) Agora preste muita atenção porque esta é a parte mais importante da operação: conte os grupos de quatro varetas que sobraram em cima da mesa após a última divisão. Haverá 9, 8, 7 ou 6 grupos de quatro varetas que correspondem ao número da linha formada na 1ª posição do hexagrama, de acordo com o seguinte quadro.
(1) 9 grupos= Linha inteira mutável(velho yang em movimento) -o-
(2) 8 grupos= Linha partida imutável(jovem yin em repouso) - -
(3) 7 grupos= Linha inteita imutável(jovem yang em repouso) -
(4) 6 grupos= Linha patida mutável(velho yin em movimento) -x-
13) Repita toda a operação para as outras cinco posições em ordem ascendente até completar o hexagrama. Não esqueça de anotar o número da linha ao final de cada operação.
14) Desenhe o hexagrama no modelo de Consulta Oracular do Instituto do I Ching. No caso de haver linhas móveis, desenhe também o hexagrama derivado do hexagrama básico, lembrando que a linha inteira (yang) móvel (9) se transforma numa linha partida yin; e que linha partida (yin) mutável (6) se transforma numa linha inteira (yang) imóvel. Os 64 hexagramas com suas seis linhas móveis permitem a possibilidade de 4.096 estados de mutação (642) com os quais pode se representar qualquer situação do mundo manifestado.
15) Identifique o número do hexagrama no Quadro de Identificação do Hexagrama.
16) Determine o nome do hexagrama na relação Nome dos Hexagramas.
17) Localize o hexagrama no I Ching e inicie a sua interpretação.
A Consulta com as Moedas
Em geral, usam-se três antigas moedas chinesas de bronze, redondas por fora o com uma abertura quadrada no meio. Uma face tem a inscrição de quatro ideogramas chineses e outra face não tem nada gravado. As três moedas são agitadas por um bom tempo e lançadas juntas. Cada lançamento constitui uma linha. A face inscrita com os quatro ideogramas é considerada yin e seu valor é 2, enquanto que a face sem inscrição é considerada yang e seu valor é 3. Assim as possibilidades de combinações são as seguintes.
(1) 3 + 3 + 3 = 9 (velho yang em movimento) - - -
(2) 3 + 3 + 2 = 8 (jovem yin em repouso) - - --
(3) 3 + 2 + 2 = 7 (jovem yang em repouso) - -- --
(4) 2 + 2 + 2 = 6 (velho yin em movimento) -- -- --
Diferença entre a Consulta com Varetas e com Moedas
O resultado da consulta com as varetas não é matematicamente igual ao resultado da consulta com as moedas. O método de consulta com as varetas de milefólio contém uma lei de probabilidade muito mais precisa do que o método de consulta com as moedas, como se pode observar no seguinte quadro:
Lei de Probabilidades Varetas/Moedas
9 (velho yang em movimento)= 12/1
8 (jovem yin em repouso)= 28/3
7 (jovem yang em repouso)= 20/3
6 (velho yin em movimento)= 4/1
Total= 64/8
No caso das varetas a probabilidade de se obter uma linha yang (20 + 12) e de se obter uma linha yin (28 + 4) esta na relação de 1:1, tal como acontece com as moedas. A probabilidade de se obter uma linha em repouso (20 + 28) e a de se obter uma linha em movimento (4 + 12), também se encontra na relação de 3:1 como na consulta com moedas.
Entretanto, no método das varetas a relação de probabilidade de uma linha yang se transformar numa linha yin é de 3:1 (12:4); enquanto que a relação de probabilidade de uma linha yin mudar para uma linha yang é de 1:3 (4:12). Essas diferentes relações de probabilidade refletem uma tendência intrínseca do yin para a estabilidade e do yang para a transformação.
UMA PALAVRA FINAL
“Toma primeiro as palavras e medita sobre seu significado. Então, regras fixas se revelarão. Mas se não és o homem certo, o sentido não te será revelado”
(Hsi Tz’u Chuan, Segunda Parte, capítulo VIII, parágrafo 4).
Sem sombra de dúvida o I Ching nos apresenta um caminho totalmente alheio à forma do pensamento racional ocidental. Quando o homem racional indaga o futuro, ele o faz de forma absolutamente consciente e deliberada; isto é, sem invocar o Poder Espiritual que é na realidade quem determina o curso dos acontecimentos no mundo manifestado. A cartomancia, a astrologia moderna, a quiromancia, a geomância, o tarô etc., assim o demonstram. Nenhum ritual iniciático confere ao consulente, nem aos instrumentos de consulta, nem ao local de consulta, os meios de ter acesso ao plano espiritual, ao plano do sagrado. Utilizar varetas de caule de milefólio, cortar com a mão esquerda o baralho do tarô, realizar a síntese de um mapa astral calculado e impresso no computador ou fazer a leitura dos traços da mão com a ajuda de um algodão embebido em tinta não tem nada de sagrado. A China Antiga - como muitos outros povos do Oriente - foi muito além da racionalidade aparente, seja nas consultas aos antepassados, seja no culto às deidades religiosas. Assim, aquele que se apresentava para consultar o oráculo, o fazia deixando de lado a arrogância e o orgulho do ego, ciente de sua insignificância e de suas limitações diante do Poder Espiritual. Desta forma, a cerimônia ritualística não somente fazia parte do processo, como que era a parte mais importante, já que dela dependia o sucesso ou o fracasso da consulta. Não pelo ritual em si, mas pela atitude de humildade e reverência que fazia com que o consulente mantivesse seu ego afastado e longe do centro dos acontecimentos, conseguindo assim abrir o canal de comunicação com o plano espiritual, entrando em harmonia com o Tao.
E é precisamente esse afastamento do ego na hora da consulta e a certeza de que as ações estão sendo conduzidas pelo Tao, que tem conferido ao I Ching o justo título de oráculo dos oráculos e uma aura de infalibilidade, nos últimos três mil anos.
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