segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

I Ching: O Livro de Oráculos


“Quando o homem superior empreende algo, considera as mutações e medita sobre o Oráculo” (Hsi Tz’u Ch’uan, Primeira Parte, capítulo II, parágrafo 6).

O que é a Adivinhação?
As civilizações antigas, tanto no Oriente quanto no Ocidente, usavam a adivinhação e os Oráculos para se comunicar com os poderes invisíveis. Os sacrifícios oferecidos aos espíritos e aos Deuses não eram uma forma de suborno ou apelo como pode, a primeira vista, parecer a um observador ocidental: eles abriam os canais de comunicação entre os homens e os espíritos.

A idéia de que palavras, coisas ou fatos podem transformar-se em agouros que abrem o canal de comunicação com o mundo dos espíritos está baseada na forma em que a psiquê trabalha - isto é, a cada sinal, conflito ou problema que o indivíduo experimenta, um espírito tenta se comunicar com ele. Cada embate com um problema é uma abertura para esse espírito, embora seja combatido pelo ego que quer impor sua vontade no mundo a todo custo. A adivinhação dá ouvidos a aquilo que o ego rejeitou trazendo à tona o complemento oculto ou a sombra da situação e liga o indivíduo aos mitos e aos espíritos que se movimentam por trás dele. Esse processo tende a modificar consideravelmente a forma em que o indivíduo vê a si mesmo, sua situação e o mundo em volta dele.

As pesquisas dos sistemas adivinatórios das culturas tribais mostram que esse processo era - e ainda é - usado para fornecer informação sobre os problemas e decisões que o método racional ou as regras de conduta não resolvem. Nesses casos, é o espelho obscuro que dá as respostas, o lugar onde o espírito de um indivíduo pode conversar com todos os outros espíritos do mundo. Esses sistemas são freqüentemente dirigidos por um animal-mago cujos misteriosos símbolos oferecem uma alternativa às leis e regulamentos da sociedade. Algum tipo de procedimento baseado no acaso abre um canal através do qual o espírito se expressa escolhendo um dos símbolos disponíveis. Tal como o tambor e a dança do xamã, esse símbolo pode falar ao indivíduo em vários planos, iniciando o processo criativo que, segundo a tradição, completa a atividade incessante do Céu. Isto é a essência da religião. Um diagnóstico final e um plano de ação surge da interação criativa entre o símbolo, o consulente e o adivinho, sobre os quais preside o plano espiritual. Essa interação invalida as velhas histórias que o indivíduo conta a si mesmo e dá lugar a novas histórias mais eficientes. Esse processo orienta o indivíduo a atuar de acordo com o espírito do tempo.

Assim, a adivinhação não é uma ritual vazio ou uma crença, mas um meio de se comunicar com o plano espiritual. Os símbolos evocados estabelecem o contato entre o indivíduo e as forças por trás dele. A linguagem é a chave para esse contato. As palavras são, no dizer dos chineses, as redes que pescam o espírito do Tao.

A Consulta ao Oráculo na Antigüidade
Em primeiro lugar, o I Ching era um Oráculo; isto é, um sistema de idéias e preceitos do qual uma pessoa necessitada de orientação pode, depois de formular uma pergunta específica, receber uma resposta. A atitude mental que leva uma pessoa a consultar um Oráculo está ligada ao esforço da mente humana de descobrir um sentido e uma ordem naquilo que é aparentemente coincidência. Daí nasce nossa vontade consciente de nos inserir dentro dessa ordem, de forma que no paralelismo entre o que está dentro e o que está fora de nós, a posição e o curso de um poderão ser significativos para o outro. Essa procura é tão antiga quanto o próprio homem na Terra e a chave que abre o portal para alcançar esse paralelismo tem sido procurada nas forças da vida orgânica, especialmente na vida animal. O Oráculo de ossos de animais tem sido usado na China desdes épocas imemoriais. Em contraste com esse e outros mecanismos divinatórios é importante observar que o Oráculo do I Ching utiliza como chave para revelar os mistérios as forças da vida vegetal e não animal. O milefólio era uma planta que crescia em lugares sagrados, cujas varetas, que segundo os antigos têm um grande poder espiritual, quando manipuladas de uma certa forma davam acesso ao Oráculo. Essa distinção entre o vegetal e o animal representa não apenas uma diferença no método mas também na natureza do Oráculo. Uma outra característica que distingue o sistema oracular do I Ching dos outros é o fato de que o consulente não depende de dons mediúnicos ou da intuição de um vidente. Desta forma, não era um ser humano o consultado, mas um conjunto de textos cuja autoridade e valor estava fora de questão. Esses textos representavam para o consulente um sistema absolutamente organizado, um esquema ordenado dentro do qual um ponto a ser determinado daria sua situação momentânea e suas implicações. Esse sistema foi criado pelos homens dos tempos antigos, os que eram reverenciados pelo consulente como guardiões de uma sabedoria absolutamente ciente da ligação entre o Céu e a Terra. Era deles que o consulente extraia sua orientação. Isso significa que o Oráculo não nasceu da noite para o dia, mas deve ter sido precedido por uma idéia coerente do cosmos, um sistema definido de imagens da vida; isto é, uma visão do mundo, que foi assim depositada no I Ching.

A consulta ao Oráculo parte da aceitação de duas premissas. Primeiro: o curso dos acontecimentos obedece a uma ordem (Tao) estabelecida entre o Céu e a Terra. Segundo: somente após a harmonização com a ordem estabelecida entre o Céu e a Terra é que surgirá o plano de referência dentro do qual a ação não é apenas possível, mas desejável. Ser orientado por uma ordem superior não parecia aos chineses da antigüidade uma perda de liberdade, pois para eles nunca houve conflito entre a auto-estima e a procura de um ponto de referência fora dos limites do ego.

Que essa procura por orientação fora de si mesmo não ficasse restrita aos adolescentes - como costuma acontecer no Ocidente - e que indivíduos aparentemente donos de seus destinos procurassem os conselhos de uma fonte supra-pessoal, e que ainda esses conselhos fossem recebidos através de um Oráculo; esses fatos mostram uma consciência das limitações individuais - na realidade, das limitações da capacidade de compreender do homem de um modo geral - e parecem completamente alheios à cultura ocidental. Uma olhada nas épocas e nas personalidades que mais consultaram o Oráculo na China revela o surpreendente fato de que foi muito mais procurado nos períodos Confucionistas do que nos períodos Taoístas - estes últimos olhados como supersticiosos -; isto é, foi mais procurado nas épocas em que a ação consciente prevalecia sobre a meditação contemplativa ou o misticismo. Um indivíduo que considerasse a auto-realização como a mais importante missão de sua vida não precisava do Oráculo; para ele a sabedoria do livro seria absorvida no estado de quietude reflexiva. Porém, quando o indivíduo engajado no processo coletivo era confrontado com decisões de grande alcance, cujas conseqüências iam além da sua própria pessoa, ele apelava para as varetas de milefólio para obter uma orientação da ordem (Tao) do Céu e da Terra.

Assim, os chineses da antiguidade usavam as varetas sem nenhum tipo de restrição e os Oráculos que foram legados a nós da época pré-Confucionista mostram uma inabalável confiança nas mensagens que emanavam desse portal misterioso. Os agouros obtidos eram vistos mais como uma determinação do destino do que como diretrizes de comportamento, sendo, portanto, aceitos e seguidos sem questionamentos. O Oráculo era consultado não apenas para tomar grandes decisões de Estado mas também no campo pessoal - isto é, em assuntos tais como: saúde do soberano e seus parentes, casamentos, sonhos, caça etc. Há uma interessante tradição histórica de acordo com a qual o rei Wu, o verdadeiro fundador da dinastia Chou, consultou a carapaça da tartaruga e as varetas de milefólio antes de lançar o ataque final contra os Shang.A profecia da tartaruga foi desfavorável enquanto que o Oráculo das varetas de milefólio foi favorável e o soberano de Chou seguiu a orientação das varetas com o resultado que conhecemos. Essa história reflete a mudança de uma para outra era: o Oráculo da tartaruga sustentava o mundo Shang a quem ele devia sua grande popularidade enquanto que as varetas de milefólio estavam abertas para a nova era.

Adivinhação com a Carapaça de Tartaruga
No final do século XIX ocorreu um descobrimento que viria a ser da maior importância no desenvolvimento do conhecimento da China Antiga. Por coincidência ou não, em 1899 o famoso antiquário e paleógrafo Wang Yirong (1845 - 1900) comprou vários exemplares de “ossos de dragão” - ossos antigos usados pelos manipuladores na preparação de remédios tradicionais chineses. Wang observou que sobre os ossos que ele comprou havia desenhada uma escrita similar, porém mais antiga, à escrita dos vasos de bronze antigos com a qual ele estava tão familiarizado. Durante o ano seguinte ele conseguiu juntar uma considerável coleção de ossos inscritos que após sua morte em 1900 passou para as mãos de um amigo seu: o famoso autor Liu E (1857 - 1909). A publicação em 1903 de “A Coleção de Tartarugas de Tieyum” com mais de mil peças inscritas abriu um novo campo de estudo e pesquisa na China: o estudo dos ossos e das carapaças ou, como são chamados no Ocidente, “os oráculos de ossos”.

Hoje, quase cem anos após a primeira descoberta, bem mais do que 100.000 peças de oráculos de ossos inscritos foram descobertos em Anyang, Honan, a última capital da dinastia Shang (Yin). Do estudo das inscrições desses ossos, que são na realidade a primeira forma de escrita na China e que agora sabemos que foram utilizadas na prática da adivinhação, a história dessa dinastia emergeu da penumbra da lenda. O leque de tópicos sobre os quais se adivinhava é surpreendentemente variado. O tempo e a colheita são, é claro, os assuntos mais importantes, assim como o sacrifício aos ancestrais e os ataques aos Estados inimigos. Mas também adivinhava-se sobre saúde, a morte do soberano e seus parentes, as caçadas, os sonhos, a construção de cidades, o despacho de ordens e o recebimento de tributos. A maioria dessas inscrições mostra a data e o nome do funcionário que presidia a adivinhação, a “pergunta” feita à tartaruga, o prognóstico do soberano e uma última interpretação - quase sempre confirmando o prognóstico do soberano - o que demonstra que as inscrições eram gravadas após a adivinhação.

A Adivinhação com as Varetas de Milefólio
Sem dúvida a mais completa descrição da adivinhação com as varetas de milefólio durante a dinastia Chou encontra-se no Tso Chuan. Trata-se de uma adivinhação realizada em 535 a.C. em favor do Duque Hsiang de Wei com o propósito de determinar qual dos seus dois filhos iria sucedê-lo como Duque de Wei.

A esposa do Duque de Wei não teve filhos (homens), mas sua concubina Chou-e teve Meng Chi. Kung Cheng Tzu, o Grande Ministro de Wei, sonhou que Kang Shu - o primeiro senhor de Wei - lhe disse para nomear Yuan (o primogênito)... Chou - e teve um segundo filho e o chamou de Yuan. Meng Chi tinha uma deficiência nos pés de forma que andava com dificuldade. Kung Cheng Tzu utilizou o Chou I para decidir sobre a sucessão através das varetas de milefólio, perguntando: “Será que Yuan terá condições de governar o estado de Wei e presidir sobre seus altares?”. A continuação ele disse: “Eu gostaria de nomear Meng Chi; será que ele é capaz de governar o estado de Wei?” Ele recebeu o hexagrama Chun (Dificuldade Inicial) e o hexagrama Pi (Manter-se Unido) - isto é, nove na linha inicial. Ele mostrou o resultado ao Escriba Chao. O Escriba Chao disse: “Sublime Sucesso (Yuan-Heng); que dúvida poderia haver?” Cheng Tzu disse: “Não está se referindo ao filho mais velho?” O Escriba Chao respondeu: “Kang Chu (o primeiro senhor de Wei) chamou-o de Yuan (o primogênito) de forma que pode-se dizer que ele é o mais velho. Meng Chi não é um homem completo (por causa de sua incapacidade), não pode ser colocado no Templo dos Ancestrais e não pode ser chamado de filho mais velho. Como se isso fosse pouco, o agouro do julgamento diz: “É favorável (Li) nomear um senhor. Se a hereditariedade fosse auspiciosa que necessidade haveria de nomear um senhor? Nomear não é herdar. Ambos os hexagramas são muito claros. O filho mais novo é quem deve ser nomeado".

Este documento, de inestimável valor histórico, sugere três movimentos no processo de adivinhação com as varetas de milefólio. Em primeiro lugar, tal como acontecia com a adivinhação pela carapaça de tartaruga, o motivo da consulta era formulado através de uma pergunta em nome da pessoa para a qual a consulta era realizada. Em segundo lugar, a adivinhação envolvia dois tempos: neste caso, o primeiro tempo resultou num hexagrama básico (o hexagrama cujo julgamento é citado) e o segundo tempo numa linha desse mesmo hexagrama (a linha cujo julgamento é citado). Em terceiro lugar, como era de se esperar, os julgamentos do hexagrama e da linha do hexagrama constituíram a base do prognóstico.

Este é sem dúvida um exemplo que nos coloca o mais perto possível do método original de consulta com as varetas de milefólio, até que novas evidências sejam descobertas.

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